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OS GESTOS DO NADA

Por: GEOVANE FERNANDES MONTEIRO

O Nada exprimível

Este Os gestos do nada me recorda o famoso verso de Bandeira: - ‘Não quero mais saber do lirismo que não é libertação’. Relembrei-me dele, pois se tornou mote, razão e norte de minha própria busca poética. E sinto o mesmo ao ler os poemas de Geovane Fernandes Monteiro.

Nós, outsiders, numa luta sem a imediatez do gritar de armas, sem a ideia do pertencimento. Longe do pretenso e utópico fiat lux, a poesia de Monteiro possui voz única e reconhecível em visível influência das inspirações, mais notadamente, metafísicas e informes. Reimaginar textos alheios globaliza a alma tão singularmente anônima. Assim, insinuar revisões, não procurar abrigo no panfleto, na identidade limítrofe, nos sofismas estéticos à off price. Entre os indivíduos que se permitem à poesia, alguns vivem para escrever, outros escrevem para viver. (...) Em Os gestos do nada, o autor imprime personalidade às palavras a partir de um tom de escape, de ostracismo voluntário; eis o Nada a quem o concebe exprimível, dentro da interioridade conceitual.

Natural que a dúvida, o incognoscível permeiem uma obra de natureza mais meditativa. Isso é fato pessoal de muitos e evidência, marca dos tempos e contratempos das narrativas no ser humano. Como tentativa de alívio em espontaneidade taoísta, o poeta constrói seus versos marcados por dissonâncias, aporias ante os dias insensíveis, a situações historicamente instáveis congeminando uma espécie de absorto amparo num underground em perene processo:

‘Enquanto dá o céu

aos homens e aos anjos

fins em si mesmos

vagueio diásporas

onde palavras rendem mais’

(Depois das horas)

‘por detrás do detrás

um mistério

tão presente

na sua natureza intacta

que se reverte

para minhas realizações’

(Vagar)

Há um forte apego ao caótico alusivo, à aparente desconexão, especialmente entre estrofes, em consequência de reações sensoriais. Marcante também são as possibilidades temáticas subordinadas à percepção do leitor. Tal fenômeno se dá através de recursos sui generis como a liberdade na distribuição dos versos, o metapoema moderado de metacrítica e a dimensão metafórica nos temas “revisitados”, na temática próxima. No campo imagético é, portanto, visível uma proposta estética arquitetada ao gosto neossimbolista. Em desconcertante alegoria dos signos, o choque entre o viver e o existir e a obsessão pelo mistério do ser despontam para o quanto da vida se torna poesia e qual (se há) o limite entre o correr dos dias e o correr das palavras, quais distinções um impõe ao outro:

‘ tenho a companhia

de não perceber

o arrastar da carne

desprevenida em semente ‘

(Mensagem)

’ tudo em si refeito

a um gesto de algum caminho

incompreensões a que dedicaste

retomam o cotidiano’

(A luta)

Ainda que dispersar-se no nefelibata poético, no quase oaristo com os versos, possa trazer conforto liquefeito, fluídico, escrever é expor-se ao mundo, expor os machucados, que nos imergem na contemplação da dor e no emaranhamento com as mais diversas feições da vida. Assim, podemos relativizá-la, racionalizando-a para, apesar e a partir do deserto particular, vivermos:

‘não

não pensar na dor

melhor perdê-la ao apenas senti-la

como recuperar-se da mocidade

sem que as esperanças a anulem’

(Meus amadores)

Fazer poesia, no universo da globalização editorial, parece um ato no vazio. Guardadas as devidas proporções, um tiro no escuro. A dicção de Geovane Monteiro transita entre o selvagem recolhimento da autocomposição e o gritar belezas pelos corredores. Em se deixar alucinar pela constatação do Nada e o nadar no vórtice dos pensamentos, o poeta assegura, sem a gratuidade do imaginário, sua razão de escrever por ser ‘antena da raça’, diria Pound.

Agrada-me decididamente – e espero que a seus leitores também – a força que a poesia demonstra neste Os gestos do nada. Seus jogos de linguagem vão além de um tropo básico e contido em si, abrolham numa entonação não essencialmente sentenciosa ou denunciadora, mas reflexiva do homem no caminho que guarda e aguarda-o. A par disso, acresço que há – na poética de furta-cor definição “pós-moderna” ¬– calma exterior, tangibilidade, sangue correndo em suas contradições, um semi-escape que nos sugestiona veredas pela vida e pela poesia.

Sebastião Ribeiro*

Selos de reconhecimento

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Ebook (PDF)
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Tema: Inspiracional & Religioso, Poesia, Literatura Nacional, Hermenêutica Palavras-chave: brasil, poemas, poeta

Características

Número de páginas: 59
Edição: 1(2019)
Formato: A5 148x210
ISBN: 978-16-740-1610-8
Coloração: Preto e branco
Acabamento: Brochura c/ orelha
Tipo de papel: Polen

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