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As fiandeiras tramam cores que doem nos olhos

Por: W. A. da Silva

O resultado da escrita é a prova que resta da pessoa que escreve? Um mapa que não leva a lugar nenhum e a nenhum tesouro é procurar pessoa aí? Fora da escrita, esse tal ser é um fantasma? Se escreve muito, ele não é muito — é talvez um compulsivo, de espirito monotemático, num hobby estranho. Também, não tendo nada de interessante para fazer da vida, se debruça, desde cedo, sobre a forma suspensa de pensamento, a ficção. Além das leituras, que outra força mobilizou-te o espírito ao anelo da escrita?

Gutemberg, sim, é a obsessão, é a mania (no sentido psicológico) e o equívoco, que te obrigam a escrever em sua condição precária, isto é, em não ter outra coisa a fazer, senão se debruçar sobre a memória-que-se-deixa-engana. Quando se chega ao ponto da escrevinhação, como necessidade ou prazer, quando a fala é coisa menor e o texto um auge, é hora de pensar numa casa de loucos, ao menos no plano de um conto. Para quem vive assim, à revelia da razão do agora, é-lhe preciosa a memória do impossível. Narrar a infância, coisa distante, é bem possível por caminhos de faz-de-conta. A infância deveria ser melhor, mas não nos foi.

Nossa geração, que viveu a crise dos anos oitenta e noventa, perdeu-se num hermetismo denso e escuro (talvez porque de fato não teve infância). E ainda que fabulemos, não escaparemos da gravidade daqueles anos. Se mesmo quiséssemos expressá-los, fomos demasiadamente lesados pelo que vivemos e testemunhamos. É certo o disparate dizer que a lógica da história — que é a pedra no meio do caminho do nosso “intelecto deformado”, da nossa “inspiração rodopiante”, da nossa “vontade ansiosa de dizer” — não nos poderia fornecer o aporte necessário para lançarmos luz sobre a “dimensão concreta”, isto é, vivida, portanto perdida, do passado. Penso que o absurdo experienciado, ali, naqueles anos, não se daria à historiografia, nem à ficção. O absurdo no preterido só pode se mostrar no caos inerente à “consciência tensa”, mas que para esta não haveria palavras suficientes para dizer, devido à saturação de certas reminiscências. Esse mostrar-se decorre pelo “buraco do véu”, do outro lado, quando nos intrometemos com os nossos mortos.

O que dizer? A mente se confunde (quanto ao tema, ao estilo, à forma, ao método, à análise, às considerações) e não haverá ponto de onde começar a dizer. O corpo cansado, que não nos permite ir à escrivaninha — apensar da nossa vontade —, é o registro impreciso daquela impossível história. Por vezes a escrita é um exercício ao redor de um objeto preciso, o “não-saber-o-que-dizer,” por medo talvez dos fantasmas. Muitas perguntas a fazer. Respostas espiraladas, circulares, labirínticas. Não nos separe entre as vírgulas.

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Tema: Biografia e Testemunho, Poesia, Literatura Nacional Palavras-chave: literatura, memória, poesia, testemunho

Características

Número de páginas: 52
Edição: 1(2020)
Formato: A5 148x210
ISBN: 978-65-874-2508-5
Coloração: Preto e branco
Acabamento: Brochura c/ orelha
Tipo de papel: Polen

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