Borges sonhou uma biblioteca infinita. Compunha-se de galerias hexagonais sem fim, e em suas estantes repousavam todos os livros possíveis — todas as combinações concebíveis das vinte e poucas letras do alfabeto. Lá estava, portanto, cada verdade já dita e cada verdade por dizer; mas estava também, afogando-as, a multidão inumerável dos volumes de puro disparate, e os que de um livro verdadeiro diferiam apenas por uma vírgula trocada. Possuir tudo era, ali, o mesmo que nada encontrar. O que o argentino imaginou como fábula, nós o erguemos como morada. Habitamos, hoje, a Biblioteca de Babel. Detém-te um instante diante do seu morador. Tem ao alcance da mão mais palavras do que todas as gerações que o precederam, somadas; e, no entanto, vaga pelas galerias com uma fome que o cerca por todos os lados sem jamais se deixar saciar. Não lhe falta o quê ler — falta-lhe o como. Como aquele outro personagem de Borges, que recordava cada folha de cada árvore que já vira e por isso era incapaz de pensar, pois pensar é esquecer diferenças, o homem da biblioteca total afoga-se na nitidez de tudo e perde o relevo de cada coisa. Nunca esteve tão acompanhado de informações; nunca tão sozinho de sentido. Os antigos conheciam um nome para o mal que assalta quem está cercado de tudo e nada deseja verdadeiramente. Chamavam-no acédia — o demônio do meio-dia, que não vem na escuridão da privação, mas no fulgor da hora cheia, quando, tendo tudo diante de si, a alma já não sabe por que levantar-se.
| Número de páginas | 74 |
| Edição | 1 (2026) |
| Formato | A5 (148x210) |
| Acabamento | Brochura c/ orelha |
| Coloração | Preto e branco |
| Tipo de papel | Couche 90g |
| Idioma | Português |
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